A Divina Aparição
Sete horas da manhã de um feriado santo e lá estávamos, Cássio e eu, pelos arredores do bairro Mon’t Serrat após uma conturbada noite sem dormir. Pairava no ar uma suave neblina, criando certa atmosfera tétrica de tamanha nostalgia a ponto de convencer-nos a transformar nossa pressa em um vagaroso andar para gozarmos daquele momento tão atípico em nossas rotinas. Havia pouquíssimos carros em circulação, sendo assim o cantarolar dos pássaros unido ao sutil chacoalhar das amendoeiras remanescentes da paisagem natural sobressaía-se e mergulhava em nossos ouvidos compondo a trilha sonora daquele episódio que jamais há de ser esquecida. Pelos quinze minutos que se seguiram, permanecemos sem diálogo. Ao invés disso, experimentamos uma espécie de comunicação sem palavras ou gestos – apenas possível em circunstâncias como aquelas. Vimo-nos de tal maneira interligados que artifícios ditos humanos para o colóquio se fizeram desnecessários e obsoletos.
Havia de acontecer algo para marcar o ápice daquele poema pessoal que vivíamos. E aconteceu. Encontrávamo-nos a poucos metros de nosso destino quando avistei, entre toda aquela neblina, um homem negro de meia-idade imóvel ao final da ruela que cruzávamos. Repousava sobre sua cabeça um elegante chapéu côco feito de feltro de lã, popular no início do século XX. Vestia um sobretudo marrom de abotoaduras largas e em sua mão direita levava uma pasta cujo conteúdo era de um mistério inigualável. Quase parei de caminhar para degustar da poesia que escorria deste homem-deus, mas procurei fingir naturalidade e continuei, apesar de me sentir um completo lixo diante daquele ser glorioso. Cogitei a possibilidade de tratar-se apenas de uma miragem, e apenas após nos distanciarmos dele olhei para meu companheiro de jornada noturna, com alguma esperança de que ele tivesse também testemunhado a existência da entidade. E lá estava Cássio, ajoelhado no chão, efetuando todas as expressões faciais humanamente executáveis ao mesmo tempo. Sim, ele testemunhou, e não havia conseguido guardar dentro de si aquele sentimento que possivelmente foi o mais belo que já provamos, liberando-o com lágrimas e risadas que ultrapassavam os limites do êxtase já descritos ou submetidos à experiência de nossa espécie.
este texto teve sua estrutura geral criada por Gabriel Hickmann, com adição de termos e certas modificações por parte de Cássio Lucas
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